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Anaciclose Imperfeita

Anaciclose Imperfeita

Fundametalismo racionalista

só vejo fundamentalistas da razão. No sentido filosófico - o do racionalismo.
Batem no cristianismo, querendo compará-lo - de forma cínica e falaciosa - com a outra ramificação abraâmica. Hoje! Agora! Patético.
Muitos deles são ateus, agnósticos e devotos do dito racionalismo. O racionalismo que também teve as suas muitas inquisições. O ocidente é que é mau. O Ocidente, o Estado, o capitalismo, a própria natureza humana, tudo isto é que deu cabo de tudo. Portanto, como está tudo lixado mesmo, deixemos a coisa avançar, sabe-se lá para onde, numa deriva quase niilista, mas em nome da liberdade. Não se sabe qual, mas também pouco interessa. O que importa é encher os pulmões e gritar: «hipócritas, viva a liberdade». Depois logo se vê.

Indelével dialéctica

A maior evidência de que a esquerda partidária continua em crise consubstancia-se nos postulados contraditórios e paradoxais que lhe indicam o norte, nos dias de hoje. Dentro desta, a marxista - sobretudo a nossa - continua agarrada aos pais fundadores, ao Marx, ao Engels, e, em alguns casos, ao Lenin e até a Stalin. Não há actualização teórica que escape ao epíteto de revisionismo burguês, traidor de classe. A lógica continua a ser a dialéctica, histórica e materialista. O maniqueísmo puro. Os bons de um lado - trabalhadores e explorados e as ditaduras que governam em seu nome -, e os maus do outro, o capitalismo imperialista e explorador. Tudo o resto resulta desta lógica redutora.
A esquerda mais moderada, dita democrática, a da social-democracia, lá se agarrou aos princípios e valores herdados da revolução francesa e da herança filosófica do racionalismo que a formatou.
Uma e outra arrogam-se de uma sobranceria intelectual insuportável.
A realidade só pode ser lida com o filtro dos seus dogmas, tudo o que escapa a essa lógica é inundado de violência simbólica. Quem não aceita, por exemplo, a crença nas sociedades multiculturais só pode ser um fascista xenófobo. Quem critica o Islão atenta contra a liberdade, mesmo se esse Islão for o maior limtador das liberdades. Não, as religiões estão todas em pé de igualdade, e em nome de um relativismo cultural muito erudito temos de aceitar que se façam e defendam as maiores atrocidades, como aquelas que remetem a mulher para um papel subalterno, submisso, subserviente e escravo. Aceita-se isso enquanto se berra contra as desigualdades de género no mundo laboral do Ocidente, ou contra o uso e exploração do corpo da mulher por parte da indústria cultural do consumo. Para a esquerda marxista, claro, o mundo árabe é vítima explorada do ocidente imperialista, logo a sua face radical é justificada, e para alguns, mesmo legitimada.
Esta arrogante superioridade moral e intelectual está a ajudar a criar (ou recriar) o monstro que é a sua antítese teórica, ideológica e sociológica. Uma coisa é certa, a História não acaba, não acabou com sociedades sem classes, nem acabará com a democracia liberal e a economia de mercado, ao invés, por vezes, ela repete-se. No passado, o excesso de racionalismo iluminista também ajudou a criar a filosofia irracionalista que viria a forjar o fascismo e o nazismo. As notícias da actualidade falam por si. Leiam-nas sem filtros.
E, sim, as ideias assumem um papel importante na estruturação social, política e económica, ao contrário do que a esquerda marxista clássica defendia.

Ode à República

A república que "rachou" trabalhadores e sindicalistas que lutaram por ela. A república que albergou ditadores proto-fascistas e outros parolos autoritários. A república que quis ser totalitária, ao estilo bolchevique. A república que hoje em dia mais não é do que uma enorme casa de malfeitorias. Onde se planeia a pilhagem e o saque.
Em relação a esta fulana, a "república", fiquemo-nos por uma epifania. Uma feliz concepção dos novos deuses da modernidade, os mestres da imagem e da ilusão. Porque tudo o que é da "república" já faz parte das indústrias culturais da pós-modernidade.

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25 de Abril

O 25 de Abril valeu, fundamentalmente, pela luta por uma transmutação de valores - concretizada pelo menos no plano ideológico e no das representações sociais colectivas -, porque, como assistimos diariamente, essa concretização nunca chegou efectivamente a passar desse plano para o plano da sua materialização social. Como podemos ir observando, a coisa não passou de uma mera circulação de elites.

Hoje acrescento que essas elites, por cá, foram sempre as mesmas na essência sociológica. Apesar das mudanças de estruturas, as elites continuam a viver sempre do saque e para o saque. Do saque colonialista passou-se para a venda a retalho do país a Bruxelas e a Berlim. As elites que, no contexto actual, enquanto vêm despudoradamente a público defender a austeridade aplicada aos trabalhadores, aos reformados, aos jovens, ao sistema de Saúde e de Ensino, se põem ao fresco nos seus paraísos fiscais.

As elites que se arvoram em entendidas na teoria económica, que vilipendiam o Estado na sua função social, mas não se esquecem de lhe estender a mão quando é necessário sugar-lhe o erário.

As elites económicas que se suportam nas elites intelectuais ao serviço da causa que, de uma forma muito marxista (ironia das ironias), decretam os fins últimos e proféticos. As teorias do fim da história e do fim das ideologias não passam de narrativas que servem o propósito de fazer desvanecer a essência da democracia – os movimentos, os partidos, o associativismo, que por cá, diga-se, também nunca fez grande escola.
As estruturas do poder tomadas, os partidos subordinados às lógicas do patrocinato, as indústrias culturais a desempenharem as habilidades da propaganda, mais ou menos furtiva, mais ou menos denunciada, e está completo o teatro do controlo e da dominação onde somos todos – uns mais do que outros – marionetas alegres.

Como disse Charles Bukowski: "A diferença entre democracia e ditadura é que na democracia se pode votar antes de obedecer às ordens."
Ou como disse Chomsky: “O sistema de controlo das sociedades democráticas é mais eficaz; ele insinua a linha dirigente como o ar que respiramos. Não percebemos, e, por vezes, imaginamo-nos no centro de um debate particularmente vigoroso. No fundo, é infinitamente mais teatral do que nos sistemas totalitários.”

Apesar disso tudo, o fim do fascismo borra-botas que estrangulou este país deve sempre ser lembrado e comemorado, porque ele ainda aí anda, mais ou menos latente consoante a consciência e o esclarecimento de quem lhe dá de comer e o passeia por aí todos os dias…

A todos esses, faço questão de lhes endereçar o bonito e popular manguito. Sempre que puder. Sempre.

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