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Anaciclose Imperfeita

Anaciclose Imperfeita

Indelével dialéctica

A maior evidência de que a esquerda partidária continua em crise consubstancia-se nos postulados contraditórios e paradoxais que lhe indicam o norte, nos dias de hoje. Dentro desta, a marxista - sobretudo a nossa - continua agarrada aos pais fundadores, ao Marx, ao Engels, e, em alguns casos, ao Lenin e até a Stalin. Não há actualização teórica que escape ao epíteto de revisionismo burguês, traidor de classe. A lógica continua a ser a dialéctica, histórica e materialista. O maniqueísmo puro. Os bons de um lado - trabalhadores e explorados e as ditaduras que governam em seu nome -, e os maus do outro, o capitalismo imperialista e explorador. Tudo o resto resulta desta lógica redutora.
A esquerda mais moderada, dita democrática, a da social-democracia, lá se agarrou aos princípios e valores herdados da revolução francesa e da herança filosófica do racionalismo que a formatou.
Uma e outra arrogam-se de uma sobranceria intelectual insuportável.
A realidade só pode ser lida com o filtro dos seus dogmas, tudo o que escapa a essa lógica é inundado de violência simbólica. Quem não aceita, por exemplo, a crença nas sociedades multiculturais só pode ser um fascista xenófobo. Quem critica o Islão atenta contra a liberdade, mesmo se esse Islão for o maior limtador das liberdades. Não, as religiões estão todas em pé de igualdade, e em nome de um relativismo cultural muito erudito temos de aceitar que se façam e defendam as maiores atrocidades, como aquelas que remetem a mulher para um papel subalterno, submisso, subserviente e escravo. Aceita-se isso enquanto se berra contra as desigualdades de género no mundo laboral do Ocidente, ou contra o uso e exploração do corpo da mulher por parte da indústria cultural do consumo. Para a esquerda marxista, claro, o mundo árabe é vítima explorada do ocidente imperialista, logo a sua face radical é justificada, e para alguns, mesmo legitimada.
Esta arrogante superioridade moral e intelectual está a ajudar a criar (ou recriar) o monstro que é a sua antítese teórica, ideológica e sociológica. Uma coisa é certa, a História não acaba, não acabou com sociedades sem classes, nem acabará com a democracia liberal e a economia de mercado, ao invés, por vezes, ela repete-se. No passado, o excesso de racionalismo iluminista também ajudou a criar a filosofia irracionalista que viria a forjar o fascismo e o nazismo. As notícias da actualidade falam por si. Leiam-nas sem filtros.
E, sim, as ideias assumem um papel importante na estruturação social, política e económica, ao contrário do que a esquerda marxista clássica defendia.

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